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Escrito por Administrator   
Qui, 17 de Novembro de 2011 23:09

A onipresença homofóbica: a íntima relação entre o machismo e a homofobia

  

A filósofa e escritora francesa Simone de Beauvoir em seu livro O Segundo Sexo refletiu a respeito da condição da mulher na sociedade e compreendeu que a “figura feminina” e as características e posturas que lhes são atribuídas nada mais são do que construções sociais produzidas de acordo com a história. Levando em consideração a constatação dessa importante escritora feminista - e concordando com ela - preferi então me referir aos que se convencionou chamar de gays “afeminados” como gays “com características mais delicadas” e em sua oposição aos gays denominados “masculinizados” como gays “menos delicados”. A minha preferência pelo uso dessas expressões possui a clara constatação de que características como a delicadeza, sensibilidade, afabilidade, impolidez, rudeza, aspereza entre outras podem pertencer aos dois gêneros, não sendo assim características fixas e natas pertencentes apenas a um ou outro gênero. A preferência pelo não uso dos termos “afeminado” e “masculinizado” também leva em consideração toda a carga de machismo de que estão impregnados.

Em relação a essas características ditas masculinas e femininas é muito comum ouvirmos os gays com características menos delicadas, os chamados “masculinizados”, dizerem que os gays mais delicados ou “afeminados” não os representam e ainda “queimam” a “imagem” dos gays perante a sociedade. Nesse pensamento pouco reflexivo, esses gays menos delicados, responsabilizam os gays com características mais delicadas pelo recrudescimento da homofobia na sociedade. A esses gays que discriminam os mais delicados fazendo uso dessa argumentação cabe um questionamento: Existe alguma imagem de gay idealizada pelos homofóbicos que não seja alvo de seus preconceitos? Existe alguma imagem positiva que a sociedade tenha criado de algum gay que o isente de ser alvo do preconceito? É evidente que não. Então, que imagem os gays mais delicados estão “queimando”? Para os preconceituosos não importa se você é mais delicado ou nada delicado. O que importa para eles é que você sendo gay se relaciona afetivo e sexualmente com homens, e isso é papel da mulher, logo, você será inferior por supostamente se sujeitar a um papel considerado deplorável.

 

E o preconceito dos gays menos delicados contra os mais delicados vai além. É muito comum encontrarmos frases como "Não sou, nem curto afeminados", "Odeio afeminados!", etc em status de msn, chats e sites de “pegação” gay. Umas grandes partes dessas sentenças são normalmente escrita ou proferida por gays menos delicados que ainda se encontram “no armário”. Muitos dos gays que escrevem ou dizem em alto e bom som essas frases se defendem afirmando que não estão sendo preconceituosos por se tratar apenas de uma preferência, que apenas não se sentem atraídos pelos gays mais delicados. Mas se tratasse apenas de uma preferência, porque então não afirmarem apenas as suas preferências em frases como “gosto de gays masculinizados”? Porque então o uso de frases que desmerecem aqueles que não são os alvos de suas pretensões?

O que está por trás dessas sentenças contra os mais delicados nada mais é que a repetição do machismo onde tudo que eventualmente esteja ligado ao que se convencionou pertencer ao universo feminino seja algo inferior e motivo de censura e constrangimento. Quando se trata de homens, gays ou não, que possuem essas características ditas “femininas” ele logo é rotulado de “afrescalhado”, “afeminado”, “mulherzinha” e advertido que isso é coisa de “viado”. Essa censura serve como intimidação aos homens para que eles não ousem transitar pelo território “feminino” e nem queiram assumir um papel que está relegado às mulheres, pois se assim fizerem, logo serão considerados inferiores e tratados como tal. Essa situação ilustra muito bem a íntima relação que existe entre a misoginia, o machismo e a homofobia. Infelizmente esse pensamento machista não é repetido apenas por homens heterossexuais. Muitos homens gays - mesmo sofrendo com a homofobia que tem forte vinculação com o machismo – ainda repetem esse pensamento em ações como o menosprezo e antipatia por gays com características mais delicadas.

Muitas vezes, nem mesmo as mulheres conseguem escapar desse pensamento machista. Ainda hoje, mesmo após décadas de luta do movimento feminista pela emancipação da mulher e de luta contra o machismo presente na sociedade patriarcal, muitas mulheres ainda o reproduz para os seus filhos, amigos, pretendentes ou companheiros. Até mesmo um simples ato de presentear uma criança pode acabar contribuindo para a perpetuação das ideias machistas. Quem nunca ouviu algumas mães repreendendo seus filhos ainda pequenos com frases do tipo: ”Deixa a boneca da sua irmã, isso não é brinquedo para menino!”, “Vá brincar com seus carrinhos!” ou até mesmo aquelas mulheres que presenteiam as meninas com casinhas, fogõezinhos, panelinhas enquanto compram para os meninos carrões, jogos de estratégia e bonecos “bombados” armados até os dentes?

Ao contrário do que pensa os gays com características menos delicadas, os gays mais delicados não fazem recrudescer a homofobia e nem os menos delicados deixam de ser alvo dela. Como afirma Didier Eribon, “Às vezes, não é preciso gesto algum: a aparência ou as roupas bastam para desencadear o ódio. Tanto contra os gays mais assumidos quanto contra aqueles que o são menos ou não o são nem um pouco, contra os que “se exibem” como contra os que dão prova de “discrição”, a possibilidade de ser objeto da agressão verbal ou física permanece onipresente”*. Nem mesmo os gays naturalmente menos delicados - ou aqueles que pelo receio de serem vitimas da homofobia na sociedade se esforcem ou até desenvolvam uma limitada capacidade de controlar os gestos e a fala - estarão a salvo de serem vitimas dessa violência. Eribon compara a homofobia onipresente na sociedade como um “constante assédio moral” na vida de todos os gays independentemente de serem eles mais ou nada delicados.

* ERIBON, Didier. Reflexões sobre a questão gay. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2008. 445p

 

 

 

Última atualização em Qui, 17 de Novembro de 2011 23:16
 

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